terça-feira, 12 de julho de 2016

O SAGRADO SACRIFICIO

Sempre digo: em nossa religião, existem coisas que são comuns, independente de nação. O iporubo (o sacrifício) é uma delas, pelo menos nos procedimentos relacionados com o mesmo.

Para o Bantu, assim como para todos os africanos, o sangue é o veículo primordial da vida. Derramá-lo sacrificalmente significa ofertar o que há de mais valioso, comunicar-se por um veículo participável, e recuperar em troca uma vitalidade maior, suprir a exigência ou fervor pessoal e comunitário de se imolar, descarregar a culpabilidade, conseguir um favor, comungar com o invisível.

Nkossi, Ògún são os Senhores da Faca para a nossa religião, o Candomblé. Nas respectivas nações de Candomblé, angola e ketu, são eles quem realizam todo e qualquer ato de transformação de um ser individualizado na massa de onde surgiram todos os demais seres(carne, sangue, ossos, etc...) Restituindo assim, o poder de realização (nguzo, hmba) ou (Àsé) individual ou coletivo, sempre auxiliado por Èsú Olobé entre os ketu e no Candomblé de Angola, pelo Pamboo Njila de Nkosi assentado do seu lado direito.

Somente um Sacerdote treinado, Asògún(Ketu) ou um Tata Pocó (Angola), deve realizar a prática meticulosa de um rito sacrifical. A essência de todo ritual está na perfeição da sua execução, portanto, sempre deve ser praticado com uma profunda precisão.

A cerimônia só tem poder para convencer os deuses ou os de sua falange, se ela houver sido celebrada corretamente. Se o ritual é deficiente, ele provoca a raiva e o ressentimento dos deuses.
Aos poucos todos os iniciados acabam entendendo que a técnica do ritual é um fator decisivo para a sua eficácia.

Tomo agora a liberdade de transcrever um fragmento do trabalho originalmente escrito em Língua Espanhola pelo Oluwò Oddí Ká Ebóin Layé , pertinente ao assunto em questão:

OS PROCEDIMENTOS RELACIONADOS COM OS SACRIFICIOS RITUAIS

I. Vestir-se de maneira apropriada.
- Levar roupas rituais, ou roupas destinadas de antemão para estas ocasiões.
- Sempre cobrirás tua cabeça, e levarás em seu corpo os atributos que dão fé de seu juramento sagrado.

II. Preparar o local do ritual.
- Limparás, ordenarás e retirarás do lugar do sacrifício, todo elemento alheio ao Sacrifício que se vai oficiar.
- Garanta medidas para fechar o círculo do local do ritual, de maneira que possa impedir invasões e interrupções externas.
- Demonstrarás dedicação e profissionalismo, garantindo as condições adequadas para o ritual
- Podemos usar a faca de sacrifício, e depois utilizar facas auxiliares, desde que previamente consagradas para esta finalidade, tomando a precaução de dispor de uma faca de sacrifício apropriada, e de algumas facas auxiliares para eleger a mais adequada, segundo a operação específica que estiver realizando.

IV. Demonstrarás dedicação e conhecimento, assegurando-se que tudo está pronto para dar início ao ritual. Pois não se concebe que no último momento, mandes buscar a faca de sacrifício que se esqueceu em um outro local, ou algum outro elemento necessário ao ritual.

V. Oferecerás água fresca ao céu e a terra.
- Farás libações de água fresca em oferecimento ao céu.
- Fará libações de água fresca em oferecimento a terra.

VI. Interrogarás as divindades que vão receber o Sacrifício Ritual.
- Antes do sacrifício, as interrogará sobre o recebimento
de seu oferecimento, mediante o recurso divinatório do Oráculo do Obí (conhecido em todas as nações).

VII. Sacrificarás sempre em nome de Nkosi, Hosi Mucongo ou Ogún.
- Antes de proceder ao sacrifício, renderás homenagem a Nkosi, Hosi Mucongo ou Ogún, o Espírito da Força, louvando-o, ou oferecendo-lhe a mais humilde e simples de tuas rezas, más sempre agradecendo.

VIII. Utilizarás a faca de sacrifício apropriada.
- Tomarás a precaução de dispor de uma faca de sacrifício apropriada.
- Apropriada, quero dizer “apropriada para você”. Que a sinta cômoda em suas mãos, que não te cause incômodo, e que te sintas seguro ao empunhá-la.
- Apropriada, significa que seja apropriada para o animal destinado ao sacrifício. Que sua lamina brilhe devido ao seu poder de corte, bem afiada. Para cortar sem dor, para secionar as veias com rapidez.
- Apropriada, significa ótima, eficiente, que não tenhas a necessidade de improvisar, auxiliando-se de outra coisa que não seja uma faca de sacrifício, porque isso seria uma profanação.

IX. Não descuidarás dos movimentos de suas mãos.
- Quando suas mãos se movem, suas mãos falam, mesmo que não tenhas se proposto falar com elas...
- Quando suas mãos se movem, seus movimentos desenham e escrevem no espaço em que cruzam, uma linguagem remota e poderosa, segundo o revelado por Ifá no Ódu ÓgbeBára (Ejíogbe - Obára).

X. Não se moverá a mão que sustenta a faca sem um propósito!
- Quando sustentas na mão uma faca, não moverás esta mão se não tens um propósito que o justifique fazer, porque a importância da linguagem de suas mãos ao mover-se se potencia,e suas consequências se multiplicam, quando a mão que se move no ar sustenta uma faca desembainhada.

XI. A chegada da faca de sacrifício começa a transformar o astral.
- A faca de sacrifício é só isso: faca de sacrifício, porém somente isso, já é o bastante. Porque quando uma faca é consagrada para esta finalidade e aparece em cena, mesmo que esteja descansando imóvel sobre o solo, começa a gerar em torno dela uma força que não se vê, estas passam a convocar a aproximar-se do lugar, energias e evoluções relacionadas.

XII. Quando uma faca aparece na mão, só fala a faca
- Não sustentarás em suas mãos, uma faca de sacrifício, se na continuidade não vais executar o sacrifício ritual.
Ao menos, não sustentarás esta faca desembainhada...
- Quando tomar em suas mãos a faca de sacrifício, que seja porque já vais executar o sacrifício ritual.

XIII. Faca de sacrifício não sabe indicar ou apontar, sem causar dano.
- Não apontaras para pessoa alguma com a faca de sacrifício. Ao menos com a faca de sacrifício desembainhada. Porque uma faca de sacrifício não sabe indicar ou apontar, sem causar dano.
- Não apontaras para o céu, nem para a terra, nem para a representação material da divindade (Igba), com a faca de sacrifício sustentada em suas mãos. Ao menos com a faca de sacrifício desembainhada. Porque isso é profanação.

XIV. Faca de sacrifício não é brinquedo, é instrumento de destruição.
- Não tomará em suas mãos faca de sacrifício para brincar com ela, enquanto rezas a Divindade, ou enquanto falas com outra pessoa, ou enquanto faças alguma outra coisa. Principalmente, com a faca de sacrifício desembainhada.

XV. Agradecerás aos animais destinados ao sacrifício.
- Antes do sacrifício, te aproximarás de cada um dos animais cujas vidas tomarás, os sustentarás em suas mãos brevemente, os acariciarás se nada o impede, lhes falará com voz tranqüila, lhes agradecerá pelo sacrifício que vão fazer por sua pessoa, ou para seus interesses, e lhes abençoará.
- Concluirás entregando-lhe a mensagem que quer fazer chegar ao Nkii ou ao Òrìsà. E depois de entregar-lhe sua mensagem, agradeça também por isso!

XVI. Lavarás bicos (focinhos), patas e anus dos animais que serão oferecidos aos deuses.
- Antes do sacrifício, lavarás as patas do animais que oferecerás ao Nkici ou ao Òrìsà, para que elas estejam limpas quando retornarem à Montanha Sagrada e pousem sobre a terra divina do mundo invisível.
- Antes do sacrifício, lavarás o bico das aves, para que esteja limpo e disposto para falar com o mundo espiritual, e transmitir sua mensagem de agradecimento, de solicitação, de compromisso, ou de devoção, ao Nkici ou Òrìsà.

XVII. A morte chega com rapidez e sem alarde.
- Quando for oficiar o sacrifício ritual, tomarás a faca de sacrifício, somente no último momento do ritual de sacrifício.

XVIII. Uma morte piedosa honra a quem a provoca.
- Tomarás a precaução de que o animal destinado ao sacrifício, não veja a faca de sacrifício sobre o solo, nem em sua mão.
- Tomará sua vida, porém evitará medos e sofrimentos desnecessários, respeitando sua natureza delicada e temerosa, como sua própria natureza...
- Porque tu tomarás sua vida em um ritual que adormecerá suas sensações para ajudar-lhe a morrer bem, e a visão da faca em sua mão, pode interromper este adormecimento relativo, e despojar-lhe de toda paz.

XIX. Respeitarás o direito de exclusividade de Ésù – Elegbára e Pamboo Njila.
- Quando realizar um sacrifício recordarás que o primeiro sacrifício se fará à representação de Ésù – Elegbára (ketu) e Pamboo Njila (angola).
- Recordarás sempre que nenhuma divindade representada, nem mesmo Ósun, o vigilante da pessoa, receberá oferecimento antes de Ésù – Elegbára ou Pamboo Njila. Porque é profanação.

XX. Pagarás o tributo da terra por cada sacrifício de vida.
- Quando fizer sacrifício de vida animal, recordará que as primeiras gotas de sangue devem ser derramadas sobre o solo. Porque cada vida que toma, a podes tomar, graças à terra que alimentou e sustentou esta vida ate o tempo em que chegou até tuas mãos para ser tomada. E deves retribuir a terra pelo que tomas graças ao seu bom trabalho.

- Não esquecerás este mandamento, para que a adversidade não te seja enviada, bem como aos seus pais, seus filhos, ou de seus parentes, para cobrar o que não retribuíste, ou o que não compartilhaste.

XXI. Com vida ou sem vida, a CABEÇA sempre se respeita.
- Toda cabeça é sagrada por conter e proteger o Orí, o Espírito Interno, a forma de consciência de cada forma de vida, em qualquer nível de evolução.
- Por isto, não maltratarás aos animais em vida, e jamais lhes golpearás na cabeça, se isso não for parte de um ritual de sacrifício.
- Também por isto, as cabeças dos animais não devem ser lançadas ao chão, ou se deixa cair por negligencia. Porque fazer isso, é uma manifestação de desapreço.
- E o desapreço à cabeça, é profanação.
- Por esta profanação, os profanadores poderiam ser chamados a responder, perante aquele que garante e aplica a justiça do Odù Babá Ejíogbe.

XXII. Sacrificarás seguindo o caminho desde a terra até o céu
- Quando oficiar cerimônias de sacrifício de animais quadrúpedes e de aves imolarás primeiro os quadrúpedes, e imolarás por último as aves.
- Porque o sangue dos animais que só se movem na terra não deve cobrir o sangue dos animais que foram dotados de Asé para deslocar-se entre a terra e o céu.
- Porque toda ave é uma forma que representa o Espírito do Pássaro, que é uma manifestação especial de Ódù, o Segundo Mistério e a Mãe Primordial, e só o poder do Espírito do Pássaro pode alimentar-se de tudo, inclusive das más obras, e pode cobrir tudo e redimir tudo.

XXIII. Nenhum sangue cobrirá as penas.
- Porque as penas ensanguentadas representam uma ave que não pode voar, que não pode escapar, que já não tem oportunidade.
Porque as penas ensanguentadas representam uma ave que esta morta, ou uma ave ferida de morte.

XXIV. As penas cobrirão o sangue.
- Porque no corpo da ave que estava viva, antes do sacrifício, sua plumagem lhe veste por fora e seu sangue circula oculto em seu interior. E assim sendo, com as penas limpas e secas, cobrindo o sangue, reproduzimos a disposição das penas e do
sangue da mesma forma que no corpo da ave...
- Desta maneira, as penas secas e limpas cobrindo o sangue, representa uma alegoria a vida, simbolizando:
- a morte com esperança de vida
- o triunfo da vida sobre a morte
E este rito tem a virtude de escrever esta promessa no Astral.

XXV. Se entregar a faca, entregas o poder.
- Recordarás que o que se faz durante o ritual se escreve no Céu, e quando fizer uma pausa momentânea no uso da faca de sacrifício, não a entregarás a outra pessoa com a intenção de que a segure um pouco para ti, para toma-la de novo depois.
- Porque isso significa que estás transferindo a esta pessoa a responsabilidade de continuar com o oficio do sacrifício, e esta pessoa terá que continuar executando o sacrifício, porque a aceitação da faca de sacrifício desde sua mão significa que prometeu faze-lo, e desde que o prometeu fazer, é sua missão, não fazer é profanação.
- E se a mão que recebeu a faca não fizer correr o sangue, e se os sacrificadores divinos reclamam o cumprimento deste compromisso involuntário, algum sangue correrá, da maneira que se decidiu no Céu, por causa de quem descumpriu, para que o escrito no Céu se leia na Terra.
- Por isso, sempre que haja uma pausa, colocarás a faca de sacrifício sobre a terra firme, e sempre perto de ti. Porque só a terra é sua firmeza, só a terra é sua confiança.

XXVII. Faca de sacrifício não é pedra para se lançar...
- Porque as coisas não se atiram, as coisas não se lançam, principalmente uma faca, quanto mais uma faca de sacrifício! Sempre a colocarás, nunca a jogarás. Porque é profanação.

XXVIII. Faca de sacrifício não se deixa cair.
- Porque uma faca na mão significa ataque, ou significa defesa. Representando também o cair da mão de quem combate, quando quem a leva cai ferido de morte, nunca deixarás cair com negligencia de sua mão, uma faca de sacrifício, para que não chames com seus atos a realidade que teus atos representam.

XXIX. Faca que se moveu e mirou, mirando sentenciou.
- Se houver jogado a faca de sacrifício, ou havendo-a deixado cair com negligencia, e a faca girar e apontar para alguém dos presentes, ou a ponta de sua lamina terminar dirigida até você, deves saber que a faca está mirando a quem aponta. E deves
saber que a faca de sacrifício mira somente para sentenciar.
- Por isso deves saber que se isto ocorre, um ebó nunca deve demorar a ser feito.
- E o ebó que for feito por esta razão, deve conter uma faca. Lembre-se, porque se lembrar te salvará a vida ou te poupará lamentos, para você ou parentes.

XXX. (...)
Concluímos esta transcrição, lembrando que o Asògún quando concluir sua função deve descarregar a faca ritual limpando-a no couro dos animais sacrificados, primeiro do lado direito passando-se o mesmo pé por cima, depois virando-se os animais e repetindo o ato do lado esquerdo, dizendo-se sempre: Lopá ki sorò, lo pá... Mastigando Obi e a atàáre e soprando nos dois lados da faca, por 3 vezes. Fazendo o mesmo com o otin e a omí.

Quanto ao Tata Pocó, quando concluir sua função deve descarregar a faca ritual limpando-a no couro dos animais sacrificados, colocando um pouco de mel nas mãos e passando na faca na parte da lamina do meio para a ponta. Deixa-a descansando recostada ao alguidá no qual tenha sido colocado a cabeça do bicho de 4 pés. Somente se tocará nela para lavar quando a obrigação for levantada.

Como podemos observar há uma enorme quantidade de energias sendo manipuladas nestes atos, o que nos remete ao fato de que somente um Sacerdote qualificado, no caso o "Asògún", um Tata Kivonda ou um “Tata Pocó” auxiliado por seus companheiros devem realizar estas cerimônias de restituição.

Logo no início deste trabalho afirmamos que os animais eram os "veículos" que levariam as nossas mensagens aos deuses, então acho apropriado assinalar que eles possuem suas representações específicas, o que também vale para os demais "CALÇOS" e "TEMPEROS" utilizados nestes atos.


Fonte: Facebook :https://www.facebook.com/permalink.php?id=145982285483449&story_fbid=372727052808970

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