terça-feira, 19 de julho de 2016

O NASCIMENTO DO OBI

Obi é um elemento muito importante no culto de Òrìsà. A noz de cola, Obi, é o símbolo da oração no òrun (céu).
É um alimento básico e toda vez que é oferecido, seu consumo é sempre precedido por preces.

Foi Òrúnmìlá quem revelou como o Obì (a noz de cola) foi criada.

Quando Olódùmarè descobriu que as divindades estavam lutando umas contra as outras, antes de ficar claro que Èsù era o responsável por isso, Ele decidiu convidar as quatro mais moderadas divindades (A Paz, a Prosperidade, a Concórdia e Ayè, a única divindade feminina presente), para entrarem em acordo sobre a situação….

Eles deliberaram longamente sobre o motivo de os mais jovens não mais respeitarem os mais velhos, como ordenado pelo Deus Supremo.

Todos começaram então a rezar pelo retorno da unanimidade e equilíbrio. Enquanto estavam rezando pela restauração da harmonia, Olódùmarè abriu e fechou sua mão direita apanhando o ar.

Em seguida abriu e fechou sua mão esquerda, de novo apanhando o ar.

Pós isso, Ele foi para fora, mantendo Suas mãos fechadas e plantou o conteúdo das duas mãos no chão.

Suas mãos haviam apanhado no ar as orações e Ele as plantou. No dia seguinte, uma árvore havia crescido no lugar onde Deus havia plantado as orações que Ele apanhara no ar.

Ela rapidamente cresceu, floresceu e deu frutos.

Quando as frutas amadureceram para colheita, começaram a cair no solo.

Ayè pegou-as e as levou para Olódùmarè, e Ele disse a ela para que fosse e preparasse as frutas do jeito que mais lhe agradasse.

Primeiro, ela tostou as frutas, e elas mudaram sua textura, o que as deixou com gosto ruim.

No outro dia, Ela pegou mais frutas e as cozinhou, e elas mudaram de cor e não podiam ser comidas.

Enquanto isso, outros foram fazendo tentativas, no entanto todas foram mal sucedidas.

Foram então até Olódùmarè para dizer que a missão de descobrir como preparar as nozes era impossível.

Quando ninguém sabia o que fazer, Elénini, a divindade do Obstáculo, se apresentou como voluntária para guardar as frutas.

Todas as frutas colhidas foram então dadas a ela.

Elénini então partiu a cápsula, limpou e lavou as nozes e as guardou com as folhas para que ficassem frescas por catorze dias.

Depois, ela começou a comer as nozes cruas.

Ela esperou mais catorze dias e depois disso percebeu que as nozes estavam vigorosas e frescas.

Após isso, ela levou as frutas para Olódùmarè e disse a todos que o produto das preces, Obi, podia ser ingerido cru sem nenhum perigo.

Deus então decretou que, já que tinha sido Elénini, a mais velha divindade em Sua casa quem conseguiu decodificar o segredo do produto das orações, as nozes deveriam ser dali por diante, não somente um alimento do céu, mas também, onde fossem apresentadas, deveriam ser sempre oferecido primeiro ao mais velho sentado no meio do grupo e seu consumo deveria ser sempre precedido por preces.

Olódùmarè também proclamou que, como um símbolo da prece, a árvore somente cresceria em lugares onde as pessoas respeitassem os mais velhos.

Naquela reunião do Conselho Divino, a primeira noz de cola foi partida pelo Próprio Olódùmarè e tinha duas peças.

Ele pegou uma e deu a outra para Elénini, a mais antiga divindade presente.

A próxima noz de cola tinha três peças, as quais representavam as três divindades masculinas que disseram as orações que fizeram nascer à árvore da noz de cola.

A próxima tinha quatro peças e incluía assim Ayè, a única mulher que estava presente na cerimônia.

A próxima tinha cinco peças e incluiu Òrìsà-Nla.

A próxima tinha seis peças representando a harmonia, o desejo das orações divinas.

A noz de cola com seis peças foi então dividida e distribuída entre todos no Conselho.

Ayè então levou a noz de cola para a Terra, onde sua presença é marcada por preces e onde ela só germina e floresce em comunidades humanas onde existe respeito pelos mais velhos, pelos ancestrais e onde a tradição é glorificada.

Texto sem autoria, garimpado e traduzido na web por Gbàfáomi.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

HIERARQUIA DO CANCOMBLE

*Hierarquia no Culto de Ifá*

Babálawó ou Iyánifá Sacerdote do Orixá Orúnmilá-Ifá do Culto de Ifá.
Após duas iniciações ("Mãos"), e sob a obediência a rígidos códigos morais, o Babálawó recebe o direito de utilizar o Opele-Ifá (ou Rosário de Ifá) e os ikins (sementes de dendezeiro - igui ope, em yorubá). O Merindilogun (Jogo de búzios) é franqueado somente aos Obaoriates e os Awófakans (Aqueles que receberam a "primeira mão")são chamados também de Olwós. Às Iyápetebis (Mulheres iniciadas a Ifá) usam o jogo de buzios chamados Ekuró. As omoIfas também usam. Os BabaIfas, que são da rama brasileira, onde as cores são o azul claro e branco.

*Hierarquia no Culto aos Egungun*

Masculinos:

Alapini (Sacerdote Supremo, Chefe dos alagbás),
Alagbá Sacerdote (Chefe de um terreiro),
Ojê (iniciado com ritos completos),
Ojê agbá (ojê ancião),
Atokun (ojê que guia de Egum),
Amuixan (iniciado com ritos incompletos),
Alagbê (tocador de atabaque).
Alguns oiê dos ojê agbá: Baxorun, Ojê ladê, Exorun, Faboun, Ojé labi, Alaran, Ojenira, Akere, Ogogo, Olopondá.

Femininos:

Iyalode (responde pelo grupo feminino perante os homens),
Iyá egbé (lider de todas as mulheres),
Iyá monde (comanda as ató e fala com os Babá),
Iyá erelu (cabeça das cantadoras), erelu (cantadora),
Iyá agan (recruta e ensina as ató), ató (adoradora de Egun).
Outros oiê: Iyale alabá, Iyá kekere, Iyá monyoyó, Iyá elemaxó, Iyá moro.

Assogba Supremo sacerdote do culto de Obaluaiyê
Babalosanyin: Responsável pela colheita das folhas.

*Hierarquia no candomblé Ketu*

Iyá / Babá: significado das palavras iyá do yoruba significa mãe, babá significa pai.
Iyalorixá / Babalorixá: Mãe ou Pai de Santo. É o posto mais elevado na tradição afro-brasileira.
Alagbá: Cargo masculino, chefe dos Oyê. Em algumas casas é também chamado de Ogan. Pode desempenhar diversas tarefas de cunho espiritual e civil e não entra em transe.
Mogbá: Cargo masculino específico do culto a Xangô. Ministro de Xangô.
Tojú Obá: Cargo masculino específico do culto a Xangô. Olhos do Rei.
Iyaegbé / Babaegbé: É a segunda pessoa do axé. Conselheira, responsável pela manutenção da Ordem, Tradição e Hierarquia.
Iyalaxé (mulher): Mãe do axé, a que distribui o axé e cuida dos objetos ritual.
Iyakekerê (mulher): Mãe Pequena, segunda sacerdotisa do axé ou da comunidade. Sempre pronta a ajudar e ensinar a todos iniciados.
Babakekerê (homem): Pai pequeno, segundo sacerdote do axé ou da comunidade. Sempre pronto a ajudar e ensinar a todos iniciados.
Ojubonã ou Agibonã: É a mãe criadeira, supervisiona e ajuda na iniciação.
Iyamorô: Responsável pelo Ipadê de Exu.
Iyaefun ou Babaefun: Responsável pela pintura branca das Iaôs.
Iyadagan e Ossidagã: Auxiliam a Iyamorô.
Axogun: Sacerdote responsável pelo sacrificio dos animais. Dependendo do caso, no ritual de iniciação, este sacerdote pode assumir outro cargo, ja que axogun é um ogan.
Aficobá: Responsável pelos sacrifícios dos animais de Xangô.
Aficodé: Responsável pelos sacrifícios dos animais de Oxossi.
Iyabassê: (mulher): Responsável no preparo dos alimentos sagrados as comidas-de-santo.
Iyarubá: Carrega a esteira para o iniciando.
Iyatebexê ou Babatebexê: Responsável pelas cantigas nas festas públicas de candomblé.
Aiyaba Ewe: Responsável em determinados atos e obrigações de "cantar folhas".
Aiybá: Bate o ejé nas obrigações.
Ològun: Cargo masculino. Despacha os Ebós das obrigações, preferencialmente os filhos de Ogun, depois Odé e Obaluwaiyê.
Oloya: Cargo feminino. Despacha os Ebós das obrigações, na falta de Ològun. São filhas de Oya.
Iyalabaké: A guardiã do alá de osaala.
Iyatojuomó: Responsável pelas crianças do Axé.
Pejigan: O responsável pelos axés da casa, do terreiro. Primeiro Ogan na hirarquia.
Alagbê: Responsável pelos toques rituais, alimentação, conservação e preservação dos instrumentos musicais sagrados. (não entram em transe). Nos ciclos de festas é obrigado a se levantar de madrugada para que faça a alvorada. Se uma autoridade de outro Axé chegar ao terreiro, o Alagbê tem de lhe prestar as devidas homenagens. No Candomblé Ketu, os atabaques são chamados de Ilú. Há também outros Ogans como Gaipé, Runsó, Gaitó, Arrow, Arrontodé, etc.
Ogâ ou Ogan: Tocadores de atabaques (não entram em transe).
Ebômi: Ou Egbomi são pessoas que já cumpriram o período de sete anos da iniciação (significado: meu irmão mais velho).
Ajoiê ou ekedi: Camareira do Orixá (não entram em transe). Na Casa Branca do Engenho Velho, as ajoiés são chamadas de ekedis. No Terreiro do Gantois, de "Iyárobá" e na Angola, é chamada de "makota de angúzo", "ekedi" é nome de origem Jeje, que se popularizou e é conhecido em todas as casas de Candomblé do Brasil.
Iaô: filho-de-santo (que já foi iniciado e entra em transe com o Orixá dono de sua cabeça), nem todo Iaô será um pai ou mãe de santo quando terminar a obrigação de sete anos. Ifá ou o jogo de búzios é que vai dizer se a pessoa tem cargo de abrir casa ou não. Caso não tenha que abrir casa o mesmo jogo poderá dizer se terá cargo na casa do pai ou mãe de santo além de ser um egbomi.
Abiã ou abian: Novato. É considerada abiã toda pessoa que entra para a religião após ter passado pelo ritual de lavagem de contas e o bori. Poderá ser iniciada ou não, vai depender do Orixá pedir a iniciação.
Sarepebê ou sarapebê é responsável pela comunicação do egbe (similar a relações públicas).
Otun e Osy Axogun são os auxiliares do Axogun
Apokan responsavel pelo culto de Olwuaye e o Olugbajé

*Hierarquia do candomblé Jeje*

Os vodunsis da família de Dan são chamados de Megitó, enquanto que da família de Kaviungo, do sexo masculino, são chamados de Doté; e do sexo feminino, de Doné

No Jeje-Mahi

Doté é o sacerdote, cargo ilustre do filho de Sogbô
Doné é a sacerdotisa, cargo feminino, esse título é usado no Terreiro do Bogum onde também são usados os títulos Gaiaku e Mejitó. similar à Iyalorixá

No Jeje-Mina Casa das Minas

Gaiaku, cargo exclusivamente feminino
Ekede

Os cargos de Ogan na nação Jeje são assim classificados: Pejigan que é o primeiro Ogan da casa Jeje. A palavra Pejigan quer dizer “Senhor que zela pelo altar sagrado”, porque Peji = "altar sagrado" e Gan = "senhor". O segundo é o Runtó que é o tocador do atabaque Run, porque na verdade os atabaques Run, Runpi e Lé são Jeje.

Hierarquia do candomblé Bantu[editar | editar código-fonte]
Títulos Hierárquicos Bantu, Angola, Congo

Tata Nkisi - Zelador.
Mametu Nkisi - Zeladora.
Tata Ndenge - pai pequeno.
Mametu Ndenge - Mãe pequena(há quem chame de Kota Tororó, mas não há nenhuma comprovação em dicionário, origem desconhecida).
Tata NGanga Lumbido - Ogã, guardião das chaves da casa.
Kambondos - Ogãs.
Kambondos Kisaba ou Tata Kisaba - Ogã responsável pelas folhas.
Tata Kivanda - Ogã responsável pelas matanças, pelos sacrifícios animais (mesmo que axogun).
Tata Muloji - Ogã preparador dos encantamentos com as folhas e cabaças.
Tata Mavambu - Ogã ou filho de santo que cuida da casa de Exu
Mametu Mukamba - Cozinheira da casa, que por sua vez, deve de preferencia ser uma senhora de idade e que não mestrue mais.
Mametu Ndemburo - Mãe criadeira da casa(ndemburo = runko).
Kota ou Maganga - Em outras nações EKEJI (todos os mais velhos que já passaram de 7 anos, mesmo sem dar obrigação, ou que estão presentes na casa, também são chamados de Kota).
Tata Nganga Muzambù - babalawo - pessoa preparada para jogar búzios.
Kutala - Herdeiro da casa.
Mona Nkisi - Filho de santo.
Mona Muhatu Wá Nkisi - Filha de santo (mulher).
Mona Diala Wá Nkisi - Filho de santo(homem).
Tata Numbi - Não rodante que trata de babá Egun(Ojé).


*Sacerdotes na África*

*BANTU (ANGOLA-KONGO).*

Kubama..................adivinhador de 1a categoria.
Tabi....................adivinhador de 2a categoria.
Nganga-a-ngombo.........adivinhador de 3a categoria.
Kimbanda................feiticeiro ou curandeiro.
Nganga-a-mukixi.........sacerdote do culto de possessão (Angola).
Niganga-a-nikisi........sacerdote do culto de possessão (Kongo).
Mukúa-umbanda...........sacerdote do culto de possessão (Angola-Kongo).

*Divisão Sacerdotais no Brasil*

Angola - língua quimbundo - Kongo - língua quicongo

Mam’etu ria mukixi......sacerdotisa no Angola.
Tat’etu ria mukixi......sacerdote no Angola.
Nengua-a-nkisi..........sacerdotisa no Kongo.
Nganga-a-nkisi.........sacerdote no Kongo.
Mam’etu ndenge..........mãe pequena no Angola.
Tat’etu ndenge..........Pai pequeno no Angola.
Nengua ndumba...........mãe pequena no Kongo.
Nganga ndumba...........pai pequeno no Kongo.
Kambundo ou Kambondo....todos os homens confirmados.
Kimbanda................Feiticeiro, curandeiro.
Tat'a Ngunzo............responsável pelo ngunzo (axé) da casa. E segredos dos orôs.
Kisaba.................pai das sagradas folhas.
Tata utala..............pai do altar.
Kivonda.................Sacrificador de animais (Kongo).
Kambondo poko...........sacrificador de animais (Angola).
Kuxika ia ngombe........Tocador (kongo).
Muxiki..................tocador( Angola).
Njimbidi................cantador.
Kambondo mabaia.........responsável pelo barracão.
Kota....................todas as mulheres confirmadas.
Kota mbakisi............responsável pelas divindades.
Hongolo matona..........especialista nas pinturas corporais.
Kota ambelai............toma conta e atende aos iniciados.
Kota kididi............toma conta de tudo e mantém a paz.
Kota rifula.............responsável em preparar as comidas sagradas.
Mosoioio................as (os) mais antigas.
Kota manganza............título alcançado após a obrigação de 7 anos.
Manganza.................título dado aos iniciados.
Uandumba................designa a pessoa durante a fase iniciatória.
Ndumbe..................designa a pessoa não iniciada.


*Referências*
Faraimará, o caçador traz alegria: Mãe Stella, 60 anos de iniciação, Raul Giovanni da Motta Lody, Stella (de Oxóssi, Mãe.), Pallas, 1999
Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira, Marco Aurélio Luz, Editora da Universidade Federal da Bahia, 2000
A familia de santo nos canbombles Jejes-Nagos de Bahia, Vivaldo da Costa Lima, Bahia, 2003
Diáspora africana Por Nei Lopes
História e ritual da nação jeje na Bahia, Luis Nicolau Parés, Editora Unicamp, 2006
Candomblé: agora é Angola Por Ivete Miranda Previtall
Ancestralidade Africana no Brasil: Mestre Didi, 80 anos, Juana Elbein dos Santos, SECNEB, Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil, 1997
Um vento sagrado: história de vida de um adivinho da tradição nagô-kêtu ... Por Muniz Sodré, Luís Filipe de Lima, 1942
O candomblé da Bahia: (rito nagô), Roger Bastide, Companhia Editora Nacional/MEC, 1978

terça-feira, 12 de julho de 2016

O SAGRADO SACRIFICIO

Sempre digo: em nossa religião, existem coisas que são comuns, independente de nação. O iporubo (o sacrifício) é uma delas, pelo menos nos procedimentos relacionados com o mesmo.

Para o Bantu, assim como para todos os africanos, o sangue é o veículo primordial da vida. Derramá-lo sacrificalmente significa ofertar o que há de mais valioso, comunicar-se por um veículo participável, e recuperar em troca uma vitalidade maior, suprir a exigência ou fervor pessoal e comunitário de se imolar, descarregar a culpabilidade, conseguir um favor, comungar com o invisível.

Nkossi, Ògún são os Senhores da Faca para a nossa religião, o Candomblé. Nas respectivas nações de Candomblé, angola e ketu, são eles quem realizam todo e qualquer ato de transformação de um ser individualizado na massa de onde surgiram todos os demais seres(carne, sangue, ossos, etc...) Restituindo assim, o poder de realização (nguzo, hmba) ou (Àsé) individual ou coletivo, sempre auxiliado por Èsú Olobé entre os ketu e no Candomblé de Angola, pelo Pamboo Njila de Nkosi assentado do seu lado direito.

Somente um Sacerdote treinado, Asògún(Ketu) ou um Tata Pocó (Angola), deve realizar a prática meticulosa de um rito sacrifical. A essência de todo ritual está na perfeição da sua execução, portanto, sempre deve ser praticado com uma profunda precisão.

A cerimônia só tem poder para convencer os deuses ou os de sua falange, se ela houver sido celebrada corretamente. Se o ritual é deficiente, ele provoca a raiva e o ressentimento dos deuses.
Aos poucos todos os iniciados acabam entendendo que a técnica do ritual é um fator decisivo para a sua eficácia.

Tomo agora a liberdade de transcrever um fragmento do trabalho originalmente escrito em Língua Espanhola pelo Oluwò Oddí Ká Ebóin Layé , pertinente ao assunto em questão:

OS PROCEDIMENTOS RELACIONADOS COM OS SACRIFICIOS RITUAIS

I. Vestir-se de maneira apropriada.
- Levar roupas rituais, ou roupas destinadas de antemão para estas ocasiões.
- Sempre cobrirás tua cabeça, e levarás em seu corpo os atributos que dão fé de seu juramento sagrado.

II. Preparar o local do ritual.
- Limparás, ordenarás e retirarás do lugar do sacrifício, todo elemento alheio ao Sacrifício que se vai oficiar.
- Garanta medidas para fechar o círculo do local do ritual, de maneira que possa impedir invasões e interrupções externas.
- Demonstrarás dedicação e profissionalismo, garantindo as condições adequadas para o ritual
- Podemos usar a faca de sacrifício, e depois utilizar facas auxiliares, desde que previamente consagradas para esta finalidade, tomando a precaução de dispor de uma faca de sacrifício apropriada, e de algumas facas auxiliares para eleger a mais adequada, segundo a operação específica que estiver realizando.

IV. Demonstrarás dedicação e conhecimento, assegurando-se que tudo está pronto para dar início ao ritual. Pois não se concebe que no último momento, mandes buscar a faca de sacrifício que se esqueceu em um outro local, ou algum outro elemento necessário ao ritual.

V. Oferecerás água fresca ao céu e a terra.
- Farás libações de água fresca em oferecimento ao céu.
- Fará libações de água fresca em oferecimento a terra.

VI. Interrogarás as divindades que vão receber o Sacrifício Ritual.
- Antes do sacrifício, as interrogará sobre o recebimento
de seu oferecimento, mediante o recurso divinatório do Oráculo do Obí (conhecido em todas as nações).

VII. Sacrificarás sempre em nome de Nkosi, Hosi Mucongo ou Ogún.
- Antes de proceder ao sacrifício, renderás homenagem a Nkosi, Hosi Mucongo ou Ogún, o Espírito da Força, louvando-o, ou oferecendo-lhe a mais humilde e simples de tuas rezas, más sempre agradecendo.

VIII. Utilizarás a faca de sacrifício apropriada.
- Tomarás a precaução de dispor de uma faca de sacrifício apropriada.
- Apropriada, quero dizer “apropriada para você”. Que a sinta cômoda em suas mãos, que não te cause incômodo, e que te sintas seguro ao empunhá-la.
- Apropriada, significa que seja apropriada para o animal destinado ao sacrifício. Que sua lamina brilhe devido ao seu poder de corte, bem afiada. Para cortar sem dor, para secionar as veias com rapidez.
- Apropriada, significa ótima, eficiente, que não tenhas a necessidade de improvisar, auxiliando-se de outra coisa que não seja uma faca de sacrifício, porque isso seria uma profanação.

IX. Não descuidarás dos movimentos de suas mãos.
- Quando suas mãos se movem, suas mãos falam, mesmo que não tenhas se proposto falar com elas...
- Quando suas mãos se movem, seus movimentos desenham e escrevem no espaço em que cruzam, uma linguagem remota e poderosa, segundo o revelado por Ifá no Ódu ÓgbeBára (Ejíogbe - Obára).

X. Não se moverá a mão que sustenta a faca sem um propósito!
- Quando sustentas na mão uma faca, não moverás esta mão se não tens um propósito que o justifique fazer, porque a importância da linguagem de suas mãos ao mover-se se potencia,e suas consequências se multiplicam, quando a mão que se move no ar sustenta uma faca desembainhada.

XI. A chegada da faca de sacrifício começa a transformar o astral.
- A faca de sacrifício é só isso: faca de sacrifício, porém somente isso, já é o bastante. Porque quando uma faca é consagrada para esta finalidade e aparece em cena, mesmo que esteja descansando imóvel sobre o solo, começa a gerar em torno dela uma força que não se vê, estas passam a convocar a aproximar-se do lugar, energias e evoluções relacionadas.

XII. Quando uma faca aparece na mão, só fala a faca
- Não sustentarás em suas mãos, uma faca de sacrifício, se na continuidade não vais executar o sacrifício ritual.
Ao menos, não sustentarás esta faca desembainhada...
- Quando tomar em suas mãos a faca de sacrifício, que seja porque já vais executar o sacrifício ritual.

XIII. Faca de sacrifício não sabe indicar ou apontar, sem causar dano.
- Não apontaras para pessoa alguma com a faca de sacrifício. Ao menos com a faca de sacrifício desembainhada. Porque uma faca de sacrifício não sabe indicar ou apontar, sem causar dano.
- Não apontaras para o céu, nem para a terra, nem para a representação material da divindade (Igba), com a faca de sacrifício sustentada em suas mãos. Ao menos com a faca de sacrifício desembainhada. Porque isso é profanação.

XIV. Faca de sacrifício não é brinquedo, é instrumento de destruição.
- Não tomará em suas mãos faca de sacrifício para brincar com ela, enquanto rezas a Divindade, ou enquanto falas com outra pessoa, ou enquanto faças alguma outra coisa. Principalmente, com a faca de sacrifício desembainhada.

XV. Agradecerás aos animais destinados ao sacrifício.
- Antes do sacrifício, te aproximarás de cada um dos animais cujas vidas tomarás, os sustentarás em suas mãos brevemente, os acariciarás se nada o impede, lhes falará com voz tranqüila, lhes agradecerá pelo sacrifício que vão fazer por sua pessoa, ou para seus interesses, e lhes abençoará.
- Concluirás entregando-lhe a mensagem que quer fazer chegar ao Nkii ou ao Òrìsà. E depois de entregar-lhe sua mensagem, agradeça também por isso!

XVI. Lavarás bicos (focinhos), patas e anus dos animais que serão oferecidos aos deuses.
- Antes do sacrifício, lavarás as patas do animais que oferecerás ao Nkici ou ao Òrìsà, para que elas estejam limpas quando retornarem à Montanha Sagrada e pousem sobre a terra divina do mundo invisível.
- Antes do sacrifício, lavarás o bico das aves, para que esteja limpo e disposto para falar com o mundo espiritual, e transmitir sua mensagem de agradecimento, de solicitação, de compromisso, ou de devoção, ao Nkici ou Òrìsà.

XVII. A morte chega com rapidez e sem alarde.
- Quando for oficiar o sacrifício ritual, tomarás a faca de sacrifício, somente no último momento do ritual de sacrifício.

XVIII. Uma morte piedosa honra a quem a provoca.
- Tomarás a precaução de que o animal destinado ao sacrifício, não veja a faca de sacrifício sobre o solo, nem em sua mão.
- Tomará sua vida, porém evitará medos e sofrimentos desnecessários, respeitando sua natureza delicada e temerosa, como sua própria natureza...
- Porque tu tomarás sua vida em um ritual que adormecerá suas sensações para ajudar-lhe a morrer bem, e a visão da faca em sua mão, pode interromper este adormecimento relativo, e despojar-lhe de toda paz.

XIX. Respeitarás o direito de exclusividade de Ésù – Elegbára e Pamboo Njila.
- Quando realizar um sacrifício recordarás que o primeiro sacrifício se fará à representação de Ésù – Elegbára (ketu) e Pamboo Njila (angola).
- Recordarás sempre que nenhuma divindade representada, nem mesmo Ósun, o vigilante da pessoa, receberá oferecimento antes de Ésù – Elegbára ou Pamboo Njila. Porque é profanação.

XX. Pagarás o tributo da terra por cada sacrifício de vida.
- Quando fizer sacrifício de vida animal, recordará que as primeiras gotas de sangue devem ser derramadas sobre o solo. Porque cada vida que toma, a podes tomar, graças à terra que alimentou e sustentou esta vida ate o tempo em que chegou até tuas mãos para ser tomada. E deves retribuir a terra pelo que tomas graças ao seu bom trabalho.

- Não esquecerás este mandamento, para que a adversidade não te seja enviada, bem como aos seus pais, seus filhos, ou de seus parentes, para cobrar o que não retribuíste, ou o que não compartilhaste.

XXI. Com vida ou sem vida, a CABEÇA sempre se respeita.
- Toda cabeça é sagrada por conter e proteger o Orí, o Espírito Interno, a forma de consciência de cada forma de vida, em qualquer nível de evolução.
- Por isto, não maltratarás aos animais em vida, e jamais lhes golpearás na cabeça, se isso não for parte de um ritual de sacrifício.
- Também por isto, as cabeças dos animais não devem ser lançadas ao chão, ou se deixa cair por negligencia. Porque fazer isso, é uma manifestação de desapreço.
- E o desapreço à cabeça, é profanação.
- Por esta profanação, os profanadores poderiam ser chamados a responder, perante aquele que garante e aplica a justiça do Odù Babá Ejíogbe.

XXII. Sacrificarás seguindo o caminho desde a terra até o céu
- Quando oficiar cerimônias de sacrifício de animais quadrúpedes e de aves imolarás primeiro os quadrúpedes, e imolarás por último as aves.
- Porque o sangue dos animais que só se movem na terra não deve cobrir o sangue dos animais que foram dotados de Asé para deslocar-se entre a terra e o céu.
- Porque toda ave é uma forma que representa o Espírito do Pássaro, que é uma manifestação especial de Ódù, o Segundo Mistério e a Mãe Primordial, e só o poder do Espírito do Pássaro pode alimentar-se de tudo, inclusive das más obras, e pode cobrir tudo e redimir tudo.

XXIII. Nenhum sangue cobrirá as penas.
- Porque as penas ensanguentadas representam uma ave que não pode voar, que não pode escapar, que já não tem oportunidade.
Porque as penas ensanguentadas representam uma ave que esta morta, ou uma ave ferida de morte.

XXIV. As penas cobrirão o sangue.
- Porque no corpo da ave que estava viva, antes do sacrifício, sua plumagem lhe veste por fora e seu sangue circula oculto em seu interior. E assim sendo, com as penas limpas e secas, cobrindo o sangue, reproduzimos a disposição das penas e do
sangue da mesma forma que no corpo da ave...
- Desta maneira, as penas secas e limpas cobrindo o sangue, representa uma alegoria a vida, simbolizando:
- a morte com esperança de vida
- o triunfo da vida sobre a morte
E este rito tem a virtude de escrever esta promessa no Astral.

XXV. Se entregar a faca, entregas o poder.
- Recordarás que o que se faz durante o ritual se escreve no Céu, e quando fizer uma pausa momentânea no uso da faca de sacrifício, não a entregarás a outra pessoa com a intenção de que a segure um pouco para ti, para toma-la de novo depois.
- Porque isso significa que estás transferindo a esta pessoa a responsabilidade de continuar com o oficio do sacrifício, e esta pessoa terá que continuar executando o sacrifício, porque a aceitação da faca de sacrifício desde sua mão significa que prometeu faze-lo, e desde que o prometeu fazer, é sua missão, não fazer é profanação.
- E se a mão que recebeu a faca não fizer correr o sangue, e se os sacrificadores divinos reclamam o cumprimento deste compromisso involuntário, algum sangue correrá, da maneira que se decidiu no Céu, por causa de quem descumpriu, para que o escrito no Céu se leia na Terra.
- Por isso, sempre que haja uma pausa, colocarás a faca de sacrifício sobre a terra firme, e sempre perto de ti. Porque só a terra é sua firmeza, só a terra é sua confiança.

XXVII. Faca de sacrifício não é pedra para se lançar...
- Porque as coisas não se atiram, as coisas não se lançam, principalmente uma faca, quanto mais uma faca de sacrifício! Sempre a colocarás, nunca a jogarás. Porque é profanação.

XXVIII. Faca de sacrifício não se deixa cair.
- Porque uma faca na mão significa ataque, ou significa defesa. Representando também o cair da mão de quem combate, quando quem a leva cai ferido de morte, nunca deixarás cair com negligencia de sua mão, uma faca de sacrifício, para que não chames com seus atos a realidade que teus atos representam.

XXIX. Faca que se moveu e mirou, mirando sentenciou.
- Se houver jogado a faca de sacrifício, ou havendo-a deixado cair com negligencia, e a faca girar e apontar para alguém dos presentes, ou a ponta de sua lamina terminar dirigida até você, deves saber que a faca está mirando a quem aponta. E deves
saber que a faca de sacrifício mira somente para sentenciar.
- Por isso deves saber que se isto ocorre, um ebó nunca deve demorar a ser feito.
- E o ebó que for feito por esta razão, deve conter uma faca. Lembre-se, porque se lembrar te salvará a vida ou te poupará lamentos, para você ou parentes.

XXX. (...)
Concluímos esta transcrição, lembrando que o Asògún quando concluir sua função deve descarregar a faca ritual limpando-a no couro dos animais sacrificados, primeiro do lado direito passando-se o mesmo pé por cima, depois virando-se os animais e repetindo o ato do lado esquerdo, dizendo-se sempre: Lopá ki sorò, lo pá... Mastigando Obi e a atàáre e soprando nos dois lados da faca, por 3 vezes. Fazendo o mesmo com o otin e a omí.

Quanto ao Tata Pocó, quando concluir sua função deve descarregar a faca ritual limpando-a no couro dos animais sacrificados, colocando um pouco de mel nas mãos e passando na faca na parte da lamina do meio para a ponta. Deixa-a descansando recostada ao alguidá no qual tenha sido colocado a cabeça do bicho de 4 pés. Somente se tocará nela para lavar quando a obrigação for levantada.

Como podemos observar há uma enorme quantidade de energias sendo manipuladas nestes atos, o que nos remete ao fato de que somente um Sacerdote qualificado, no caso o "Asògún", um Tata Kivonda ou um “Tata Pocó” auxiliado por seus companheiros devem realizar estas cerimônias de restituição.

Logo no início deste trabalho afirmamos que os animais eram os "veículos" que levariam as nossas mensagens aos deuses, então acho apropriado assinalar que eles possuem suas representações específicas, o que também vale para os demais "CALÇOS" e "TEMPEROS" utilizados nestes atos.


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