Termo que pode ser traduzido como o “ Vaivém da morte” correspondendo com algumas diferenças ao conceito de ABIKU dos yorubás.
Inúmeras crendices absurdas foram criadas a esse respeito, sofrendo uma adaptação no absoluto desconhecimento de sua fundamentação original sendo comum encontrar-mos pessoas que afirmam convictamente, serem UAFU-ZA-KUIZA ou ABIKU, como queiram dizer.
Para ilustrar essa ignorância, criaram em torno do fenômeno histórias como as que seguem:
1) A mãe da pessoa morre no parto
2) A mãe durante a gravidez, foi submetida a uma iniciação
3) O Uafu-Za-Kuiza é sempre o caçula
4) Quando nasce gêmeos e um morre
5) Uafu-Za-Kuiza é a Divindade da pessoa
Aí está relacionado um monte de bobagens e mentiras que merecem ser paradas por nós, nos próximos tempos, para evitar que as vítimas continuem a viver erroneamente, descrevo a seguir o verdadeiro conceito sobre o assunto, fundamentado em muitas etnias bantu, para a maioria dos povos africanos, os filhos representam o maior tesouro que o homem pode adquirir em sua passagem pela Terra, assim sendo, o fenômeno Uafu-Za-Kuiza, tanto quanto o Abiku para os Yorubás, são considerados como verdadeiras maldições nas medidas em que privam o ser humano de adquirir uma prole. Estes povos crêem na imortalidade do espírito e acreditam na reencarnação de forma um tanto quanto diferenciada da filosofia adotada pelas culturas orientais.
Enquanto os yorubás visualizam a reencarnação dos espíritos das pessoas mortas em qualquer idade, para os nativos Bantu (Ngola-Kongo), somente os espíritos infantis podem reencarnar, mantendo a crença de que só se reencarnarão em uma pessoa de sua própria família, como explicarei adiante.
O terrível e insondável enigma do destino da alma depois da morte tem preocupado e continua a preocupar os homens de todas as raças, desde a existência dos primeiros seres humanos sobre a Terra, para os nativos de Ngola e Kongo, como para a maior parte dos povos bantu, a alma é o duo do homem, um ser de essência diferente, como KULUNJI (inteligência) que encarna KU MUKUTU ( no corpo).
Este nasce, morre e apodrece, enquanto o primeiro deixa o segundo no momento de expirar, é o MUIKUA (hálito quente), que se situa no sangue que está no coração e nos pulmões, órgãos motores e principais.
Saído do corpo, o MUIKUA (hálito quente), a fim de se dirigir ao seu criador, tomo o caminho, através de ribeiros e rios, que o conduzirá a SANZALA KASEMBE DIÁ NZAMBI ( Aldeia Encantada de Deus ), tratando-se do MUIKUA de qualquer criança, este será devolvido pelo NZAMBI (Deus) a fim de reencarnar de novo, no ventre da mãe ou de qualquer outra mulher da família que lhe seja destinada.
NZAMBI (Deus) pouco se importa com a vida boa ou má dos homens sobre a Terra, mas é ele quem fixa a sua existência no mundo dos vivos e o momento em que devem morrer, isto é, deixar a vida terrena para irem prestar-lhes contas do que aqui fizeram.
Todos os que tem MUXIMA PUEMA (bom coração), seja qual for a sua condição, ficarão na SANZALA KASEMBE DIÁ NZAMBI (Aldeia encantada de Deus), ali vivendo segundo a condição que tinham em vida, assim um chefe será sempre um chefe, mesmo depois da morte.
Os que tem MUXIMA UAIBA (mau coração), entre os quais os suicidas, os assassinos, etc. jamais terão entrada na SANZALA KASEMBE DIÁ NZAMBI (aldeia encantada de Deus), porque estes os devolverá ao nosso mundo para sofrerem determinadas punições.
Estes espíritos, sem forças para encarnarem em seres humanos, serão transformados em espíritos malignos.
Outros, serão condenados a viverem em qualquer animal irracional sendo que, uma vez nascidos, viverão na mesma espécie eternamente em sucessivas reencarnações.
Há porém, alguns deles que, por não se conformarem com tal destino se integram a DIANDA (sociedade) de UAFU-ZA-KUIZ (Abiku dos yorubás).
Integrando-se nesta sociedade, os espíritos UAFU-ZA-KUIZA, também conhecido como UFUNJE, estabelecem um pacto com MULUNGI MUJIMU (ventre ruim), condicionando sua permanência a determinada exigência da líder.
Após o pacto formalizado, espíritos, ficam determinados a provocarem as mortes das crianças em que estejam encarnados, ou seja, provocam seus próprios abortos, fazendo com que as mulheres por eles possuídas tenham um ventre ruim, segundo a tradição, estes espíritos têm o mesmo tamanho de um recém-nascido, com o corpo de homem, costumam se reunir em MPAKU (toca) de determinadas árvores, situadas em caminhos que levam as aldeias, a passagem de uma mulher de corpo aberto, ou seja, em fase de menstruação, é por ele esperadas e, através da abertura, instala-se em seu útero e aguarda ali que ocorra a fecundação, alojando-se no embrião, dando início a encarnação que, com certeza, será interrompida antes de completar os nove meses de gestação.
A circunstância de sucessivos abortos faz com que, os casais procure o NGANGA-A-NGOMBO (Adivinhador), contactada a presença de um UAFU-ZA-KUIZA, a mulher atingida, será encaminhada a um KIMBANDA (Curandeiro/Feiticeiro) especialista no MUSAXI, culto específico a UAFU-ZA-KUIZA, em companhia do KIMBANDA MUSAXI e do NGANGA-A-NGOMBO, a mulher é submetida a uma série de procedimentos ritualísticos que visam garantir o nascimento de seu próximo filho, não por intermédio da expulsão do espírito alojado em seu útero, mas através de concordância em nascer e continuar vivendo no corpo gerado.
Para fixar esse espírito e garantir o nascimento da criança, o KIMBANDA MUSAXI, auxiliado pelos TUPELE divinatórios do NGANGA-A-NGOMBO, através de rituais precisos, saberá o dia em que ele deveria morrer, dando-lhe um nome sugestivo de permanência aqui na Terra, nome este que renega a morte, e o que é principal, quebra a KIJILA (abstenção) deste UAFU-ZA-KUIZA, ou seja, formaliza um novo pacto, cortando definitivamente, sua ligação com a líder MULUNGI MUJIMU (ventre ruim).
O novo pacto formalizado, consiste em dar forças ao espírito, que reencarnado no embrião, nascerá como qualquer criança e viverá no período correspondente a média normal de vida humana.
Ao nascer, a criança é submetida a outros rituais, coloca-se em seus tornozelos TUELELE (tira de pele com pequenas campânulas metálicas) e, uma pequena incisão é feita em seu corpo, sendo através dela introduzido o MAFU (pó sagrado) este mesmo pó é colocado dentro de um amuleto denominado de KAPURI que será pendurado no pescoço da criança e usado até a idade em que possa atender a voz de comando de seus pais, ou até nascer um irmão.
Este espírito que no passado não alcançou o reino de NZAMBI (Deus), terá uma nova chance de ser eleito, se fizer por merecer.
Do contrário estará perdido, transmigrará para qualquer animal em gestação onde viverá eternamente em sucessivas reencarnações, ou será devorado por MULUNGI MUJIMU (ventre ruim) que, com certeza, cobrará pelo rompimento do pacto com ela estabelecido.
Esta criança após ter sido tratada e tiver que ingressar no caminho do NKISI terá que se submeter a toda iniciação como qualquer outra pessoa, ou seja, será raspado e no futuro poderá assim iniciar outras pessoas.
ABIKU (KETU)
Sucessivos abortos numa mesma mulher, partos seguidos da morte da criança recém nascida, morte de crianças ou jovens, repentinas e associadas a estágios significativos de vida, tais como mudanças nas fases de crescimento, aniversários, casamento ou nascimento do primeiro filho, são identificados como acontecimentos ligados aos Àbíkú.
O que é “Àbíkú”?
A tradução literal é “nascido para morrer” (a bi ku) ou “o parimos e ele morreu” (a bi o ku), designando crianças ou jovens que morrem antes de seus pais. Há, assim, dois tipos de Àbíkú: o primeiro, Àbíkú – omode, designando crianças e o segundo, Àbíkú – Agba, referindo-se a jovens ou adultos que morrem, via de regra, em momentos significativos de suas vidas e sempre antes dos pais, apresentando nisso uma alteração da ordem natural que socialmente é aceita e entendida como: aqueles que chegaram ao Aiyé (mundo físico) primeiro, voltam primeiro ao Orún (mundo espiritual). Nessa questão, além da lógica natural, está presente a garantia da continuidade no Aiyé e a certeza da lembrança e do culto ao ancestral que deixa descendentes que recontarão sua história ao longo dos tempos, garantindo sua “sobrevivência” na comunidade.
No Orún vive um grupo de crianças chamadas Emere ou Elegbe e este grupo constitui o Egbe Orún Àbíkú, ou seja, sociedade das crianças que nascem para morrer. Contam os mitos que a primeira vez que os Àbíkú vieram para a terra foi em Awaiye e constituíam um grupo de duzentos e oitenta, trazidos por Alawaiye, chefe deles no Orún. Na encruzilhada que une o Orún ao Aiyé, ikorita meta, todos pararam e vários pactos foram feitos, definindo o momento particular do retorno de cada um ao Orún. Alguns voltariam quando vissem pela primeira vez o rosto da mãe, outros quando casassem, um terceiro grupo voltaria quando completassem determinado tempo de vida, um quarto grupo voltaria quando tivessem o primeiro filho, e assim por diante. E o carinho dos pais, o amor que recebessem ou os presentes não seriam capazes de retê-los no Aiyé. Alguns assumiram o compromisso de que nem nasceriam. Esse pacto deveria ser cumprido e os seus companheiros no Orún manterem-se presentes na sua vida, interagindo no seu dia a dia, para que não o esquecessem e retornassem ao Orún tão logo o momento pactuado ocorresse.
Como chega a ocorrer o nascimento ou a manifestação de um Àbíkú em uma gravidez? O Ioruba acredita que a acção do Àbíkú ocorre por determinação do destino da mãe, ou por força de magia/feitiçaria, ou por condições acidentais. O Prof. Sikiru Salami e a Profa. Dra. Iyakemi Ribeiro, na sua monografia “Ayedungbe: a terra é doce para nela se viver – rito na luta contra a morte de Àbíkú”, definem essas condições acidentais como “aquisição inadvertida de um Àbíkú por uma mulher grávida que não tenha tomado os necessários cuidados para evitar isso”. Existe a crença de que uma mulher grávida, ao passar por determinados locais em que os Àbíkú se estabelecem, se não estiver devidamente protegida, pode ver-se invadida por este “espírito” e tornar-se sujeita à gravidez de um Àbíkú. Por isso cuidados especiais são tomados pelas mulheres tão logo tenham consciência do estado de gravidez. Não é raro que mulheres grávidas carreguem junto a barriga um “ota”, devidamente preparado, para evitar essa “invasão” por parte de um Elegbe. Sacrifícios, oferendas e rezas são feitas também com o objectivo de evitar que uma mulher tenha filhos Àbíkú ou que, grávida, venha a ser “invadida” por um deles.
Deixando de lado condições acidentais ou efeito de magia/feitiçaria, temos observado que a ocorrência de Àbíkú numa mãe invariavelmente repete uma história familiar que podemos reconhecer procurando os seus antecedentes. Ou seja, podemos procurar nos antecedentes familiares da mãe para constatar, invariavelmente, que este Àbíkú vem se fazendo presente na família, geração após geração, em linha directa ou não.
Outra questão interessante é que podemos afirmar com grande precisão que alguns Odú de nascimento predispõem a ocorrência de Elegbe. Assim, temos que mulheres regidas pelo Odú Ogundabede (Ogunda + Ogbe) são naturalmente predispostas a gerarem filhos Àbíkú e, identificadas, quando ainda não são mães, certas oferendas são realizadas e alimentos são-lhes dados para prevenir a ocorrência. Ebó igualmente é feito nas situações em que já geraram filhos ou planejam gerar – um preá é colocado acima da porta de entrada da casa e um peixe acima da porta de trás, para proteger os moradores da visita dos Elegbe que ali vêm em busca de seus companheiros. Neste caso, deixam de ter acesso ao interior da casa e levarão, no lugar da pessoa que vieram buscar, o preá e o peixe. Um Orin Egbe , cantiga dedicada a Aragbo ou Ere Igbo, Orixá protector das crianças Àbíkú, fala-nos desse Ebó.
Entendemos, assim, que Egbe é cultuado e louvado com a finalidade de defender as crianças da morte prematura e oferendas lhe são feitas para que “desistam” de levar os Àbíkú de volta para o Orún, sendo um de seus objectivos a questão da manutenção dessas crianças no Aiyé. Segundo o Prof. Sikiru Salami e a Profa. Dra. Iyakemi Ribeiro, na obra já citada, “… Estabelece-se assim um jogo de forças entre Aragbo e a comunidade de Àbíkú que deseja levar seus membros do Aiyé, mundo físico, para o Orún, mundo dos mortos, mundo espiritual.
Cultos e oferendas são realizados tanto para que a comunidade de Àbíkú abra mão de levá-los de volta, como para que Ere igbo os proteja de serem reconduzidos à terra espiritual.” Todas as pessoas nascidas dentro do Odú Ogundabede, homens e mulheres, devem cultuar Egbe. Entende-se também que quem o cultua evoca as suas bênçãos em benefício das crianças do núcleo familiar. Aliás, o culto de Egbe e suas festas trazem muita semelhança com as festas e o culto que se fazem para “Cosme e Damião” e que são, muitas vezes, confundidas com o culto do Òrìsà Ibeji. Este Òrìsà e Egbe (ou Aragbo) são de distintas naturezas, justificam abordagens e tratamentos diferenciados, têm formas particulares de serem louvados, são cultuados por diferentes razões e necessidades, e os seus cultos não podem ser confundidos sob pena de incorrermos em erro de fundamento.
Por último, dois aspectos são importantes de serem nomeados: o primeiro, diz respeito ao que podemos chamar de comportamento peculiar da criança Àbíkú. São, certamente, crianças que se distinguem por este aspecto. Segundo, a resistência, na nossa cultura, que os pais têm em aceitar o facto de terem um filho Àbíkú e a dificuldade consequente em lidar com esta criança e todas as necessidades decorrentes da luta pela sua permanência no Aiyé. Cabe aí um importante papel para o sacerdote que pode ajudá-los a compreender a questão, dar-lhes orientação e acompanhamento durante todo o processo.
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